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Lançado em 2003, Pluto, mangá do aclamado autor Naoki Urasawa, surge com a proposta de reimaginar o arco "O Maior Robô da Terra" do clássico Astro Boy. Mais do que uma homenagem a um dos principais nomes da indústria, Osamu Tezuka, a obra se consolida por si só como um sucesso ao apostar em uma história de investigação e mistério, com um, infelizmente atual, lembrete das consequências que esperam uma sociedade pautada no ódio e no ressentimento.
Publicado entre os anos de 2003 e 2009 na revista Big Comic Original e posteriormente compilado em 8 volumes, Pluto se apresenta ao leitor uma realidade futurista onde robôs altamente avançados convivem com os seres humanos em diferentes formas da vida cotidiana. Quando uma das 7 inteligências artificiais da humanidade é assassinada de forma violenta, Gesicht, membro desse seleto grupo de autômatos, passa a investigar o caso, e aos poucos, começa a descobrir verdades escondidas por baixo de incontáveis carcaças mecânicas, e também humanas.
"Em um mundo onde humanos e robôs coexistem, o poderoso robô Mont Blanc foi destruído. Ao mesmo tempo, um importante ativista protetor dos direitos dos robôs é assassinado. Os dois incidentes apresentam algo em comum nos locais dos crimes: chifres colocados nas cabeças das vítimas. Gesicht, um competente investigador da Europol, está prestes a enfrentar o mais tenso e complexo trabalho de sua carreira, no qual ele também é uma vítima em potencial: um dos robôs mais poderosos do mundo!"
Fonte: Panini
É com esse plano de fundo que Urasawa escolhe utilizar um personagem tão icônico como o Astro Boy para construir uma narrativa onde expõe os terrores da guerra e as consequências de nutrir um ciclo incessante de ódio contra grupos considerados diferentes. Nesse sentido, a humanização dos robôs atua mais como forma de personificar qualquer comunidade ou organização que se distingue de uma maioria.
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| Imagem de Divulgação |
Logo no início de seu trabalho investigativo, Gesicht encontra como semelhança entre os casos uma referência a Pluto, ou Plutão, o deus romano dos mortos. Enquanto interage com as possíveis próximas vítimas, o integrante da Europol começa a juntar as peças de um mistério que se apresenta como consequência de um conflito ainda maior. Mais do que um assassino, o protagonista se vê cara a cara com um fantasma do próprio passado, capaz de personificar o rancor de um povo inteiro.
Publicado oficialmente no Brasil por meio da editora Panini, Pluto também recebeu em 2023 uma adaptação em anime com 8 episódios pela Netflix, disponível com dublagem e legenda em português. A produção foi animada pelo Studio M2 e produzida pela GENCO com colaboração da Tezuka Productions.
Confira trailer:
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O ódio que não gera nada além de ódio
Antes de interpretações particulares e um ponto de vista contextual, a história se passa após o conflito fictício, embora relacionável com momentos de realidade, entre os Estados Unidos da Trácia e o Império Persa comandado por Dário XIV. Sob o pretexto de supostos projetos de criação de armas de destruição em massa, a Trácia promove uma invasão justificada em uma ameaça sem provas concretas, resultando na limitação do desenvolvimento tecnológico de uma sociedade marcada pelas cicatrizes de um genocídio.
É com esse passado que convivem os personagens apresentados como as máquinas mais poderosas do mundo. Utilizados como ferramenta de destruição, programados para seguir ordens, cada um buscou a sua maneira de limpar as mãos manchadas por sangue e óleo. Enquanto Gesicht busca seguir sua vida ao lado de sua esposa, seus semelhantes dedicam o resto de seus dias a tarefas de diferentes naturezas. Mont Blanc, que abre a história como primeira vítima, se dedicava à causa ambiental, já Brando e Hércules passam a nutrir uma rivalidade saudável dentro de combates esportivos.
São em traços como esse, com destaque para o arco de North No. 2, que desejava usar a música e arte como forma de fugir da culpa, que Urasawa traça uma linha fina entre o homem e a máquina, permitindo discussões que seguem relevantes mais de quase duas décadas após sua conclusão. Dessa forma, o autor brinca com o contraste entre robôs cada vez mais sensíveis e humanos terrivelmente frios.
Sem entrar em muitos spoilers, pois acredito que parte do charme da obra vem dos seus mistérios, é interessante pontuar que a própria figura de Pluto, enquanto figura antagônica, materializa e confunde essa distinção ao movimentar seus circuitos com base no ressentimento dos homens. Tanto ele quanto os demais "vilões" que surgem com a investigação de Gesicht misturam e confundem o espectador em relação à sua verdadeira natureza.
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| Imagem de divulgação |
Inicialmente introduzidos como criaturas incapazes de ferir os humanos e de mentir, a narrativa estabelece essa distinção para explorar a ideia de que essa fronteira seria quebrada ao introduzir sentimentos e memórias extremas, como perda, dor, tristeza e ódio, possibilitando o nascimento da IA mais avançada de todas. Com isso em mente, o mangá questiona se a única diferença entre os seres seria a capacidade de tirar uma vida.
Mais do que uma história de ficção científica, o autor explora as consequências e expressões políticas que surgem de movimentos e campanhas baseadas no medo e na aversão àqueles que são diferentes. Quando países utilizam ameaças infundadas e o pânico para intervir em seus vizinhos, quando grupos extremistas se erguem fortalecidos pelo ressentimento e quando a violência vitimiza crianças, o resultado não é nada além de um cenário vazio de perdas, onde antes deveria florescer vida.
Apesar de ausente por boa parte da trama, Atom, o icônico Astro Boy, é quem assume o papel de conclusão da trama, simbolicamente é o robô com aparência de criança que encerra o conflito ao assimilar não apenas a raiva, mas também as esperanças de seus semelhantes. No fim, é nos mais jovens que reside a capacidade de romper esses ciclos de violência, demonstrando que o robô mais forte e mais humano do mundo é aquele que compreende que nada nunca nascerá do ódio.
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| Reprodução: Internet |
Fontes: O texto contém informações disponibilizadas online e na plataforma Netflix e pela Panini. Além disso as imagens e vídeos são materiais oficiais de divulgação.

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