O adeus de Eri e a fantasia que separa a realidade da ficção

Imagem com um fundo vermelho onde vemos em primeiro plano uma jovem sendo filmada por um telefone celular. O roto dela é visto apenas pela tela do aparelho.

Escrito por Tatsuki Fujimoto (Chainsaw Man) e lançado em abril de 2022 no aplicativo da Shōnen Jump+ e posteriormente em um único volume físico em julho de 2022, "Adeus, Eri" (Sayonara, Eri) demonstra a qualidade narrativa e técnica do autor ao aproximar a estética do cinema do formato dos mangás. 

"Eu quero que você filme a minha morte", esse é o pedido recebido pelo protagonista Yuuta, que abre a história recebendo de sua mãe doente um telefone para poder filmar seus momentos finais. Após ser duramente criticado por transformar sua tragédia familiar em um filme escolar, o colegial decide cometer suicídio até ser interrompido por Eri, uma jovem misteriosa e estranhamente encantadora, que, comovida com sua produção anterior, o incentiva a produzir um filme capaz de arrancar lágrimas de seus espectadores.

"Yuuta começa a produzir um filme devido a um pedido de sua mãe doente. Após o falecimento dela, rapaz conhece uma bela e misteriosa garota chamada Eri. Os dois começam a produzir um filme juntos, porém, a jovem guarda um segredo... Essa é uma história em que a juventude é apostada em um filme onde a realidade e a ficção se misturam de forma explosiva!!"

Longe da extravagância violenta de Chiansaw Man, e próximo do fascínio pela arte presente em Look Back, a obra expressa não apenas o gosto do autor pelo cinema como forma de arte, como também o valor de produções audiovisuais no registro de memórias na criação de narrativas que existem no espaço entre o real e a ficção. Ao apostar no talento de Yuuta, Eri não apenas o ajuda a aumentar seu repertório de filmes, como também o instiga a retirar fantasia de sua própria realidade.

Dois jovem sentados em um sofá olhando para a frente, atrás deles está um projetor de filmes
Reprodução | Internet


A paixão pela sétima arte também se evidencia na forma como estão organizados os quadros do mangá, quase todas as páginas estão preenchidas por painéis amplos, sequenciais e em primeiro plano, muitas vezes com diferenças sutis nas expressões dos personagens. Essa estrutura emula a movimentação típica de vídeos e animações.

Com o passar das páginas, Fujimoto tensiona os limites da realidade ao inserir histórias dentro de outras histórias, ao ponto em que se torna difícil distinguir o que é real e o que é pura invenção de Yuuta e Eri, até que uma explosão repentina rompe uma das camadas construídas anteriormente. Em resumo, somos tragados por uma sucessão de ficções dentro de novas ficções enquanto o cinema se torna plano dentro de centenas de folhas de papel. 

Toda realidade necessita de um toque de fantasia: 

Antes de prosseguir para trechos com spoilers, é preciso ressaltar que ficção e fantasia não são, em em sua totalidade, o oposto de real. De forma contrária, toda ficção nasce daquilo que entendemos como realidade, de suas lacunas e da extrapolação dos fenômenos que não conseguimos explicar de forma lógica, adicionando tempero àquilo que sozinho se tornaria entediante aos olhos cansados de quem vive em monotonia.

Capa do mangá "Adeus, Eri", escrito por Tatsuku Fujimoto
Reprodução | Internet

A ideia de uma vampira milenar prestes a falecer de uma doença incurável, aliada a explosões sem nenhuma explicação, reforça a noção do mangaká do potencial que existe em mesclar fatos com elementos fantásticos para transmitir mensagem de forma precisa. 

De certa forma, é possível dizer que a ficção bebe diretamente da realidade de seu autor para tomar forma,  referências e repertórios se combinam para dar forma a uma ideia que se assemelha à realidade concreta, porém não se prende a limitações práticas. Frente à desconexão com a vida causada pelo luto, a materialização de uma jovem vampira apaixonada por filmes pode ser a única saída para voltar a pôr os pés no chão. 

"...Desde muito pequeno, você sempre gostou de acrescentar uma pitada de fantasia em tudo."

Conforme a trama avança, fica claro que o conceito de verdade se torna relativo mediante as intenções de quem comanda o olho da câmera. Se em um primeiro momento a mãe de Yuuta se apresenta como uma mulher amorosa que desejava ser lembrada pelo filho, de uma hora para a outra a personagem se revela uma pessoa amarga que pretendia forçar um filho criança a vê-la morrer sob o pretexto de preservação de legado. Dessa forma, o que começa como uma piada de mau gosto se transforma no desejo de filho de lembrar com carinho das melhores partes de alguém que amou. 

Aqui, o mangá expõe parte do poder da arte, sobretudo do audiovisual, no processo de preservação e divulgação de memória. Os registros de sua mãe e os momentos com a Eri não são meras peças de entretenimento, mas sim uma forma de garantir que os detalhes não sejam esquecidos e que, mesmo por meio de recortes momentâneos, a presença do outro se mantenha viva. Como destacado pelo mangá, o processo de criação envolve mergulhar nas próprias dores e na realidade do outro para emergir com fragmentos capazes de emocionar terceiros. 

"Criar algo é se meter nos problemas dos outros para fazê-los rir e chorar, certo? Então, não seria justo se os criadores saíssem ilesos disso, né?"  

Ao editar a montagem do filme que gravou no colégio, Yuuta demonstra o poder de decisão sobre quais aspectos manter em sua produção, o que se preserva é a imagem de uma mãe amorosa e gentil, partes que poderiam ser sobrepujadas por momentos de amargura e dor. O jovem escolhe mais detalhes devem ser transmitidos, de forma que o primeiro curta exibido não fosse um retrato fiel da realidade, e que desde o inicio os espectadores observassem uma peça de ficção, mas nunca uma mentira. 

 "Yuuta, você tem o poder de decidir como vai se lembrar de alguém. na verdade, isso é incrível"


Fontes: O texto utilizou a reprodução de imagens promocionais e de divulgação. Os trechos reproduzidos foram retirada edição de "Adeus, Eri" publicada no Brasil pela Editora Panini e as frases são creditadas ao autor da obra. 

Samuel Lima

Escrevo de tudo um pouco aqui na Otadesu, sempre com o objetivo de informar com qualidade. instagram bluesky

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