Bizarro e Humano: A reinvenção de Araki em Jojo's Bizarre Adventure

Imagens com os seis protagonistas de Jojo's Bizarre Adventures correndo em fila com um fundo branco

Poses, referências musicais, personagens chamativos e... Corridas de cavalo? Jojo's Bizarre Adventure está de volta com sua sétima parte "Steel Ball Run". Ambientada no cenário da expansão para o oeste nos Estados Unidos em 1890, uma das partes mais queridas pelos fãs de JoJo finalmente ganha vida em mais uma adaptação do estúdio David Production, distribuída oficialmente pela Netflix. Mais do que um presente para os apreciadores, Steel Ball Run é uma oportunidade para que um novo público mergulhe na obra de Hirohiko Araki. 

Após 17 anos de serialização, entre 1987 e 2004, o mangaká mais uma vez resolveu se reinventar e apresentar seus já consolidados personagens em um novo contexto, com novas histórias e em cenários totalmente novos. O fim de Stone Ocean foi mais do que o encerramento de uma saga familiar desenvolvida por quase duas décadas, mas representou um momento de renovação para um autor cuja criatividade é comparável ao senso estético.

O cenário prisional da sexta parte da obra dá lugar a uma épica corrida de cavalos por toda a extensão dos Estados Unidos, onde o sobrenatural cavalga lado a lado com acontecimentos bizarros e personagens cativantes. 

Sinopse: 

"América, 1890. Johnny Joestar, um jóquei genial que ficou paralisado da cintura para baixo, persegue o criminoso Gyro Zeppeli em uma corrida de cavalos pelo continente." 
 Sinopse Netflix

Confira o Trailer: 



O primeiro episódio, com 40 minutos, já se encontra disponível com dublagem na Netflix, enquanto a segunda etapa tem previsão de lançamento ainda para 2026, porém ainda sem data específica. O espaço de tempo entre o lançamento de novos episódio se torna a oportunidade perfeita para quem deseja mergulhar de cabeça no universo de Jojo's enquanto espera a próxima etapa da corrida. Mas afinal, o que torna esse universo tão especial?

O brilho da estrela humana: 

Poses em eventos, memes icônicos e cosplays extravagantes, Jojo transcende as páginas e frames animados, se materializando em uma espécie de movimento social. As aventuras bizarras da família Joestar conquistaram uma legião de fãs que transpiram o carinho pela obra para a realidade, o mérito desse movimento recai, entre muitos fatores, sobre a capacidade de reinvenção do autor. 

A história nasce como uma novela de época ambientada na burguesia inglesa. O protagonista, Jonathan Joestar, é um típico cavalheiro, com valores centrados em noções de honra e masculinidade, dedicado a defender o nome de sua família nobre de um jovem ambicioso que se infiltra em sua pacata rotina. A história, aos poucos, abre espaço para o surrealismo, vampiros, poderes mágicos e uma sede de vingança que perdura por gerações. Esses são elementos que subitamente saltam diante do espectador. 

Hirohiko Araki, homem japonês de meia idade com uma roupa cor de creme, visto apenas dos ombros para cima.
Reprodução: Internet


As ruas de Londres de Phantom Blood dão lugar aos EUA, à Itália, ao Egito e ao Japão ao longo de suas sequências. A pluralidade temática da obra é capaz de satisfazer amantes de longas jornadas e apreciadores de suspenses com serial killers. Por quase vinte anos, Araki não explorou apenas temas diversos, mas alterou sua estética e inspirações para se adequar e premeditar gostos e tendências, os homens musculosos e corpulentos, contemporâneos a histórias como Hokuto no Ken, para jovens esguios com roupas chamativas e pouco convencionais. 

O autor bebe de muitas fontes para compor suas criações, sejam as estátuas gregas que conheceu em viagens à Europa, a moda do estilo Versace e músicas e artistas de diferentes gêneros e épocas, inspirações declaradas pelo mangaká. Mais do que isso, o artista tem como base em seu processo criativo as minúcias do cotidiano humano. Se o real é a base da ficção, Hirohiko Araki extrapola de forma consciente aquilo que abita o seu entorno. Conforme demonstrado em entrevista na Lucca Comics em 2019: 

"Sendo meu trabalho, encontro inspiração em muitas coisas, especialmente em momentos da vida cotidiana. Quando eu encontro meus amigos, quando olho para o meu vizinho, quando bebo um pouco de água e ela fica na minha garganta... eu poderia fazer um poder mesmo a partir dessas coisas. Basicamente, acredito que a observação de pequenos detalhes é essencial em um processo criativo."

A sobrevivência do título em meio a tantas obras nasce do olhar humano de seu criador, disposto a distorcer regras e conceitos para entregar emoção e surpresa, o rompimento com as normas narrativas não vem do amadorismo, mas sim de um domínio completo das formas de contar uma história. O desejo de criar algo divertido e emocionante culmina no surgimento de poderes confusos, cenas repentinas e ações que desafiam a lógica anteriormente estabelecida.

Jojo's soube se adequar ao tempo, não só acompanhou o crescimento do público, mas também cresceu com ele. Soube encerrar ciclos, abordar temáticas atuais e contornar ideias retrógradas e criar personagens que subvertem alguns clichês, o papel deu vida a mangakás sinistros, vampiros, homens de pedra, assassinos que vivem sob uma fachada inofensiva, mas também foi palco de homens andrógenos, mulheres fortes, jovens PCDs e indivíduos marginalizados. A estrela da família Joestar brilha diante de um conceito que se faz presente por mais de vinte anos e chamou a atenção de públicos tão plurais: a riqueza da humanidade. 

"Na verdade, tudo começou porque me disseram para desenhar algo assim. Percebi durante o trabalho a profundidade dos personagens, a admiração pelo lado humano e o tema do destino. De fato, ao explicar de uma maneira mais detalhada, eu colocaria no papel a afirmação da raça humana, para não esquecer a humanidade. Existem pessoas boas e positivas com todos os seus lados apreciáveis, mas também há pessoas negativas com seus lados humanos e apreciáveis."

Com 7 partes animadas, e com uma nona sendo desenhada no momento, é muito provável que exista ao menos um Jojo que ressoe com seus gostos, ou talvez a obra seja "apenas" uma boa vitrine para referências artísticas e culturais. No fim, o que importa é compreender que, mesmo diante de estranhezas e jogos do destino, existe beleza no conceito de humano.       


Fontes: O texto usou como fontes imagens, vídeos e informações de divulgação, além de trechos de uma entrevista retirados do site Biblioteca Brasileira de Mangás. Além informações de repertório pessoal. 

Samuel Lima

Escrevo de tudo um pouco aqui na Otadesu, sempre com o objetivo de informar com qualidade. instagram bluesky

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