Entre o defeito e a qualidade: O que o "Poder da amizade" tem a dizer?



A quantidade de histórias centralizadas em grupos de jovens com cabelos e roupas coloridas parece interminável. De repente, flashbacks intermináveis, resoluções sentimentais e discursos dramáticos que mudam o rumo dos conflitos começam a parecer zombaria diante de uma realidade cada vez mais cansativa e corrida. Conforme expetador cresce, parece surgir um ceticismo em relação ao "poder da amizade" como forma mágica para romper barreiras, e a gente começa a procurar por histórias mais "realistas", sujas e, muita vezes, fatalistas sem se dar conta de que poucas coisas são tão honestas quanto uma relação afetiva.

Lema da casa de alguns dos mangás de maior sucesso no mercado, a Shonen Jump, as palavras "Amizade, esforço e vitória" buscam consolidar em suas obras fatores fundamentais para o desenvolvimento dos seu público alvo: os jovens em processo de construção de identidade. Embora idealizada para o público juvenil, parte dessas obras se mantém no radar de diferentes gerações, revelando um apelo pelos gêneros e temáticas abordadas por elas, independente de fatores geracionais. 

Apesar disso, em um contexto de crescimento da lógica individualista e com uma série de acontecimentos, em diferentes escalas, que parecem estar fora do controle, a ideia de laços capazes de salvar o mundo começa a soar infantil e pouco prática. Nesse contexto, parece natural se afastar desses discursos enquanto busca por histórias mais próximas ao cotidiano, a "problemática" surge ao enxergar que o famigerado "poder da amizade" como um defeito, e não como parte de uma narrativa que ainda possui seu valor. 

"Ninguém nasce neste mundo para ficar sozinho"

Jaguar D. Saul 

Os piratas do Chapéu de Palha não são o que são apenas por sua força, seu carisma reside na relação entre os personagens que compõem o grupo e na forma com que os 10 membros se apoiam na realização de sonhos tão particulares entre si. Da mesma forma que a interação casual entre Nikaido e Caiman amenizam a realidade sombria de Dorohedoro, uma simples mesa de bar com um punhado de amigos consegue minimizar as angustias de uma rotina exaustiva. 

Pôster do anime Dorohedoro, mostrando os personagens principais
Imagem de divulgação 


O ponto não é a romantização cega do tema, a maioria dos problemas não somem depois de um dia de conversa jogada fora. Encarar os cenários com realismo não é reduzir tudo ao fim, mas compreender que conceitos como saúde e bem-estar estão intimamente ligados a trocas sociais. 

Assim como abordado na obra Ikoku Nikki, é fato que algumas dores são tão particulares que não cabem ao outro compreender. Não é sobre transferência, mas sim dividir, mesmo que momentaneamente, fardos que se tornam exaustivos demais com o tempo. O peso não desaparece por completo, mas o reconhecimento e respeitos as dores alheias permitem um novo fôlego em meio ao caos cotidiano.

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Definidos como seres sociais, é no contato genuíno com o outro que se dá sentido ao "eu". Em um mar de frustrações, sonhos e dores, uma tripulação cheia não impede a formação de tempestades, mas torna possível navegar com segurança. Entre o copo meio cheio ou meio vazio, eu escolho preencher ambos com o Saquê de Binks.


Fontes: O texto conta com imagens de divulgação oficiais disponibilizadas na internet e informações de repertório e acervo pessoal.

Samuel Lima

Escrevo de tudo um pouco aqui na Otadesu, sempre com o objetivo de informar com qualidade. instagram bluesky

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