Persona 5: Quando tirar a máscara vira questão de sobrevivência

Alguns dos personagens principais de Persona 5 em destaque, com um fundo vermelho

Lançado no Japão no dia 15 de setembro de 2016, e posteriormente em sua versão Royal em 2019, Persona 5 se consolida para muitas pessoas como um dos JRPGs mais influentes de seu tempo. A fama nasce de um cruzamento de qualidade técnica e histórias envolventes, capazes de extrair mais de 100 horas de jogo dos amantes do gênero.

Quinto filho da franquia Persona, que por sua vez é derivada da saga de jogos japonês Shin Megami Tensei, Persona 5/Persona 5 Royal se classifica como um um RPG, jogo onde os participantes assumem o papel de personagens fictícios, pautado em combates de turno e com uma narrativa expostas por meio de uma estrutura de Visual Novel, jogos interativos que combinam literatura, arte estática e música para a transmissão dos acontecimentos. A união dessas características proporciona uma experiência balanceada entre texto e combates estratégicos, permitido um desenvolvimento da trama ao mesmo tempo que o jogador explora masmorras, aqui chamadas de palácios, e enfrenta inimigos inspirados em espíritos, divindades de demônios de diferentes culturas. 

Capa do jogo persona 5, mostrando os personagens principais
Imagem de divulgação 


O charme da obra se deve em grande parte ao primor estético e sonoro adotado na construção de identidade do jogo. Designs de personagem, cenários e trilhas sonoras baseadas em jazz atuam como peças fundamentais na construção de uma atmosfera que transita entre o melancólico e o épico, ditando o clima enquanto a trama progride. A predominância do vermelho, formas pontudas e escritas irregulares entregam, logo nos menus iniciais, a agressividade inerente da rebeldia. 

Ao longo da gameplay, você acompanha o jovem estudante Ren Amamiya, transferido para Tóquio após ser acusado injustamente pelo crime de agredir um homem até então misterioso. Abrigado no porão da cafeteria LeBlanc, localizada em uma pequena vizinhança, Ren embarca em um ano letivo repleto de surpresas e encontros que vão mudar seu destino para sempre 

O que inicia como uma provação legal logo se transforma uma verdade jornada por auto descoberta e liberdade, que ganha forma com a conexão improvável de um grupo de jovens. A descoberta de um universo metafísico, o Metaverso, onde os desejos distorcidos dos corruptos ganham forma cria uma chance de mudança para os estudantes que, até então, eram vítimas de uma estrutura social opressiva e controladora. Diante do conformismo sufocante, escurecer as roupas e firmar poses agressivas é uma resposta quase instintiva. 

Agora com acesso direto a cognição dos vilões, o grupo auxiliado por suas personas (manifestações espirituais do "eu"), iniciam uma cruzada pessoal por concertar as injustiças e mudar de uma vez por todas os ideais de seus algozes. Sob o arquétipo do "ladrão fantasma), surgem os Phantom Thieves of Hearts. 

Sinopse:

"Após ser obrigado a se transferir para um colégio em Tóquio, o protagonista tem um sonho estranho. "Você é um prisioneiro do destino. Em breve, a ruína chegará para você." Para se "reabilitar", ele deve usar a máscara de um Phantom Thief para salvar os outros dos desejos distorcidos."

Fonte: Nintendo Switch

Nesse contexto, o jogador assume o papel do agora Joker, apontado como prisioneiro do destino por figuras misteriosas, em uma embates que colocam sua própria identidade em cheque. Persona 5 Royal se encontra disponível nas plataformas PlayStation 4 e 5, Nintendo Switch, Xbox One, Xbox Series X/S e PC.

 Adaptação em anime: 

A obra também recebeu uma adaptação em anime lançada em 2018 com produção do estúdio CloverWorks. A série, dirigida e escrita por Masashi Ishihama e Shinichi Inozume, compila em 28 episódios os principais acontecimentos do jogo. 

Pôster do anime PERSONA 5 the Animation
Imagem de divulgação 

"Transferido para a Academia Shujin, em Tóquio, Ren Amamiya está prestes a entrar no segundo ano do colegial.
Após um certo incidente, sua Persona desperta, e junto com seus amigos eles formam os Ladrões-Fantasma de Corações, para roubar a fonte dos desejos deturpados dos adultos e assim reformar seus corações.
Enquanto isso, crimes bizarros e inexplicáveis surgem um após o outro...
Levando uma vida comum em Tóquio durante o dia e rondando a metrópole à noite...
Ergam-se as cortinas para esta grande história picaresca!"

Fonte: Crunchyroll 

Confira trailer:


Disponível legendado na Crunchyroll, PERSONA5 the Animation pode ser uma boa porta de entrada para quem se interessar pela história e não estiver afim de enfrentar mais de 100 horas de jogatina. 

"Eu sou tu, Tu és eu":

Cores, formas, menus e músicas ditam de forma clara a premissa de Persona 5: Abrace sua rebeldia interior. Estética, conceitos psicológicas e figuras infames se misturam em um mundo de distorções, fazer as pazes com sua sombra interior e encontrar seus pares deixa de ser apenas conforto e se torna um método de sobrevivência. 

Bebendo diretamente da psicóloga junguiana, a franquia adota os termos sombra e persona como uma mecânica que transcende a jogabilidade e vaza para a narrativa. Para o psicólogo Carl Jung sombra representa aquilo que o ego esconde, é o lado inconsciente trancafiado por contradizer a norma social. 


Capa do jogo Persona 5 Royal mostrando os personagens principais em destaque
Imagem de reprodução 


Muitas vezes reprimido devido a circunstâncias externas, o arquétipo da sombra se revela um mecanismo necessário para evitar conflitos. Embora necessária, a sombra pode omitir talentos, vontades e sonhos que não encontram um ambiente propício para ganhar vida. 

Em contrapartida, a persona é definida pelo pesquisador como a máscara social responsável por adequar o eu interno ao mundo exterior, em outras palavras, aquilo que você mostra para o mundo. O jogo intencionalmente escolhe brincar com o conceito e firmar as personas como uma manifestação física do encontro entre seus personagens e os ímpetos de revolução guardados em suas sombras. 

Criminosos da literatura e transgressores sociais se manifestam como um grito que a muito tempo esteve trancafiado no subconsciente dos protagonistas. Arsène Lupin, Zoro, Capitão Kid e Joana d'Arc se manifestam como uma alegoria fantástica para os impulsos de mudança forçados para dentro da sombra. Firmar um contrato com uma persona é antes de tudo, dar voz a tudo aquilo que se mantém preso na garganta

Ser você é um ato de rebeldia: 

Em uma história onde jovens se levantam contra seus opressões, o "ladrão fantasma" é ressignificado para uma figura que rouba com elegância não só objetos, mas também os valores e sonhos que lhes foram tirados. Invadir palácios do subconsciente e derrotar vilões são apenas o pano de fundo para uma história sobre o direito de ser você mesmo e se levantar em nome daquilo que acredita.


A escalada das ameaças, iniciando com um professor abusivo, passando por empresários, autoridades e figuras politicas, deixa clara a ideia de que o conceito de dominação permeia as diferentes camadas sociais. Seja em casa, no trabalho ou por meio de uma visão macro das estruturas sociais, somos constantemente regulados por uma série de normas que acabam por excluir e silenciar indivíduos que destoem daquilo que é considerado ideal. 

Nesse sentido, os Phantom Thieves são mais do que heróis a margem da sociedade, mas também um refúgio para jovens que se sentem sufocados por injustiças que os cercam. Liderados por um garoto acusado de crime que não cometeu e composto por membros que carregam contextos diversos mas semelhantes em natureza, o elenco de personagens se mostra identificável, tanto para quem foi rotulado como delinquente quanto para quem já está cansado de performar diante de expectativas projetadas por terceiros.


Joker, do jogo Persona 5 fazendo uma pose enquanto ajusta a luva de uma das mãos e usa um traje elegante. O fundo da imagem é vermelho e está escrito "The show's over" em letras estilizadas na lateral da imagem
Imagem de reprodução 

Enquanto batem de frente com autoridades e travam batalhas em uma realidade moldada pela distorção da mente de seus adversários, os integrantes desse grupo de ladrões redescobrem partes de si que se mantinham enterradas por baixo de uma série de camadas de proteção. O ato de arrancar, de forma violenta, uma máscara ao forjar um contrato com suas Personas representa o esforço de aceitar as sombras que normalmente mentemos escondidas. Aceitar a si mesmo exige coragem e, apesar de doloroso, o processo fornece a força necessária para se opor as coisas que não fazem mais sentido. 

Apesar disso, a obra não procura privilegiar o individuo sobre o coletivo, Ren só se torna capaz de sobrepor um destino de calamidade por confiar na força dos laços construídos com seus companheiros. Se rebelar contra o sistema vai além de revelar as mentiras, mas lutar pelo direito de seus semelhantes existirem como são, a bandeira e os atos públicos adotados pelo grupo buscam, ao mesmo tempo, intimidar os adversários e encorajar os oprimidos.

A passagem do tempo também é um elemento fundamental para trama, que progride juntamente com o período escolar. Vivendo um dia de cada vez, o protagonista se vê em fluxo onde é impossível voltar para corrigir erros e tragédias que estão consolidadas, restantando apenas a possibilidade de avançar e fazer diferente de agora em diante. A luta não é para salvar o passado, mas para encontrar em si e nos seus a força necessária para conquistar um futuro mais justo. 

Transitando por um espaço mental com o objetivo de "roubar corações", os estudantes promovem mudanças pontuais que desencadeiam mudanças profundas no status quo. Guiados por valores pessoais e um forte senso de justiça, os trickters aprendem que uma mentalidade coletiva aprisionada reflete em um mundo de pessoas cativas por correntes invisíveis. De forma equivalente, ao confiar em laços sólidos e acreditar no potencial de mudança humano, a possibilidade de uma realidade melhor, é possível combater a escuridão eminente, mesmo que lentamente. 

É fato que o sofrimento existe e muitas vezes escolhemos sustentar uma fachada por baixo de versões que são mais aceitáveis socialmente. Aos poucos, medo, vergonha e a pressão de ser alguém se acumulam e tornam o cotidiano cada vez mais exaustivo. Acolher a si mesmo, incluindo as falhas, é o primeiro passo para partir em direção a mudança, é preciso usar a revolta como ferramenta de transformação e aceitação. Diante disso, encontre seus iguais e arranque sua máscara. 

Quando roubar de volta o que é seu por direito, garanta que eles nem te vejam chegando. 


Fontes: o material apresenta imagens e vídeos oficiais de divulgação e reproduzidas na internet.

Samuel Lima

Escrevo de tudo um pouco aqui na Otadesu, sempre com o objetivo de informar com qualidade. instagram bluesky

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